Yasmin Anukit*
Hoje, vivenciamos uma sistemática inundação de "terrorismo islâmico", sem que nenhuma questão a respeito de sua origem seja levantada. A caricatural imagem do "fanático fundamentalista", Bin Laden, carregando a projeção de tudo aquilo que é rejeitado e odiado pela "civilização ocidental", não resiste à avaliação menos acurada. Nem o mundo árabe, nem o mundo islâmico, a rigor, dispõem de quaisquer meios possíveis de fazer face às grandes potências, mediante veículos de propaganda. Além disso, se os Estados Unidos conseguem derrubar governos, como não podem capturar terroristas?
A contínua oportuna ameaça de Bin Laden fermenta a legitimação da política dos falcões: a "guerra ao terrorismo" - guerra essa sustentada pela perpetuação do mito. Por que Bin Laden não foi encontrado? Incompetência ou conivência secreta?
A fabulosamente rica Al-Qaeda não passa de uma fachada para grupos de extermínio cuja retórica invalida o Islã verdadeiro, enquanto hipocritamente clama por "justiça aos oprimidos do Oriente". Serve, sim, à estratégia belicista das grandes potências, ao capital da guerra sem fronteiras e aos polpudos lucros do sistema de segurança anglo-americano, tal como foi mostrado claramente pelo cineasta Michael Moore.
O governo de Saddam Hussein proíbia a presença de Bin Laden em seu país. Após a queda de Bagdá, terroristas da rede foram infiltrados a serviço de interesses globalizados, a fim de deslegitimar a resistência nacional iraquiana, por um lado e, por outro, causar danos aos civis daquela já sofrida nação, numa escalada sem precedentes. Em muitos casos, trata-se de uma presença meramente virtual. Inúmeras vezes foram encontrados agentes das forças de coalizão, com roupas árabes, perpetrando ataques contra iraquianos civis.
O noticiário internacional satura o expectador com a violência banalizada de "homens-bomba," dando lugar à generalização dos árabes como "muçulmanos fanáticos", imagem essa da qual se serviu abusivamente toda a retórica imperialista do século XIX, quando decidida a enfeudar a vasta civilização do Oriente Médio na discriminação e no preconceito.
Nenhuma palavra é dita sobre o horror imputado ao povo pelo exército dos Estados Unidos. Ignora-se como civis indefesos, — homens, mulheres e crianças — são massacrados sob as ordens de "atirem em qualquer um," ambulâncias metralhadas, médicos impedidos de socorrerem vítimas; as casas destruídas e os homens levados, sem qualquer explicação, deixando para trás o trágico abandono de órfãos e viúvas.
O patrimônio milenar do Iraque — insuperável relíquia de toda a humanidade — foi saqueado e roubado por colecionadores particulares americanos; as universidades, escolas, museus e bibliotecas foram incendiados e, last but not least, as cifras atingiram mais de dois milhões de mortos em decorrência da agressão e do embargo! Uma destruição intencional, vinda de países (Estados Unidos e Israel) que se recusam a aceitar a Convenção de Proteção à Diversidade Cultural proposta pela Unesco.
Por sua vez, os soldados americanos desertam para evitar a carnificina. Preferem ser mutilados ou feridos, escapando, assim, à linha de frente!
É insustentável continuar em silêncio diante do espetáculo grotesco de uma pátria atingida por uma nova cruzada, suas mesquitas profanadas, seus livros sagrados rasgados, os fiéis dizimados com mísseis em pleno serviço religioso, atacados com napalm, urânio depletado e bombas de fragmentação proibidas pela Convenção de Genebra! Missionários protestantes alegam abertamente que "é preciso matar para levar a democracia e a liberdade!"
Não bastando, ainda temos que engolir o circo de Bin Laden e sua trupe como paladinos da retaliação islâmica, a fim de criar uma justificativa para a rainha inglesa: "Os terroristas querem nos impedir de viver nossa vida."
Quem está impedindo de viver a vida de quem?
Como compreender que, em pleno século XXI, uma ocupação brutal, baseada em mentiras, siga seu curso sem protestos que contestem a arrogância do governo Bush e que os meios de comunicação se calem quando se trata de denunciar a ilegalidade da agressão e o sofrimento do povo iraquiano. Em lugar disso, uma intensa propaganda de "terrorismo árabe" (cujas ações escusas e irreconhecíveis são facilmente imputadas à uma organização de fachada) busca invalidar a indignação geral contra o holocausto de toda uma nação, enquanto os países atingidos pelo "terror" mergulham numa onda de racismo cega. Não será este o maquiavélico objetivo de Bin Laden e das forças que o sustentam?
*Yasmin Anukit, escritora e autora do livro "Da Mesopotâmia ao terceiro milênio: Iraque, a ressurreição de um povo".